O que é um plano-sequência?

De que forma uma única técnica cinematográfica impacta decisivamente nossa percepção sobre o filme, principalmente sobre as noções de espaço e tempo dentro da narrativa.

 

Quem nunca viu aquelas longas cenas em um take único, quando parece que o diretor não parou de gravar um momento sequer? Isso é um plano sequência. A câmera quase literalmente narra a história. A ação se desenrola de forma fluida, sem cortes, aumentando a sensação de pertencimento à cena. Contribuindo para uma maior imersão do espectador frente a narrativa, a técnica parte da não-fragmentação de uma ação pela montagem. Registrando todo o acontecimento sem interrupções do começo ao fim, a imagem se desloca temporalmente e espacialmente junto aos personagens. Mas, porque este recurso estético tem esse nome? Na verdade, o termo em si surge da junção de outros dois conceitos amplamente utilizados pelos profissionais do cinema. Então, vamos a eles.

A menor parte de uma imagem em movimento é o que chamamos de plano, que nada mais é do que aquilo gravado e que depois será editado entre dois cortes. A existência de um plano é delimitada pelo tempo, ou seja, seu início e término acontece pela sucessão de outros iguais a ele. Seu conjunto forma uma cena e várias cenas de uma mesma ação formam uma sequência. Temos, portanto, uma noção do menor para o maior em que a junção das partes visa estabelecer o todo. Tal como um texto, os planos são os versos, cenas os parágrafos e a sequência o capítulo.

Storyboard do filme “Psicose” de Hitchcock. Cada quadradinho é um plano e a soma de todos eles cria a cena clássica do banheiro.

Exemplificando, imagine dois personagens conversando em um balcão de bar. No set, a equipe de filmagem realizou diversos planos de todo o encontro, como: Homem bebendo enquanto escuta sua parceira; mulher dando risada e levando o guardanapo até a boca; os dois se olhando em silêncio; close do garçom servindo o vinho nas taças; homem de forma atrapalhada derruba a bebida no vestido; mulher levanta e vai até o banheiro; esfrega sabonete na mancha; usa um secador de cabelo sobre a roupa; retorna ainda mais confiante pelo corredor; se assusta ao entrar novamente no bar; homem continua sentado no balcão só que conversa com outra pessoa; close na mulher pegando sua taça de vinho pela metade; joga o líquido contra o homem.

No parágrafo anterior, podemos facilmente compreender a construção da narrativa dentro dos conceitos de plano, cena e sequência. O primeiro diz respeito a tudo que é mostrado para o espectador de forma contínua, isto é, como uma sucessão de imagens em movimento sem interrupção de qualquer tipo (mulher dando risada e levando o guardanapo até a boca). A cena é o conjunto de planos que acontecem no mesmo lugar e momento. Sempre que a ação muda espacialmente e temporalmente, troca-se por consequência a cena (no exemplo temos a cena do balcão, banheiro e o retorno da mulher). Já a sequência é o conjunto das cenas que estão interligadas pela narrativa. O cenário pode variar, mas a ação tem continuidade lógica (no nosso caso, poderíamos englobar tudo na sequência do encontro).

Agora fica mais fácil de entender o termo aqui em questão. Um plano de tão grande acaba se tornando uma cena e, indo além, trafega por diferentes ambientes ao ponto de virar uma sequência coerente perante a narrativa proposta pelo filme. Isso é um plano-sequência.

Um dos principais entusiastas desta técnica foi André Bazin (1918 - 1958). Crítico e teórico do cinema, ele defendia um realismo cinematográfico a todo custo que poderia ser alcançado pelo uso de algumas práticas durante as filmagens. A primeira, diz respeito à alta profundidade de campo que, de forma simplista, nada mais é do que gravar sem desfocar coisa alguma do plano. Assim, a imagem se aproxima da forma como enxergamos as coisas no nosso dia a dia. Seguindo nesta linha, o pesquisador também propagandeava o conceito do plano-sequência como uma escapatória para a montagem. Para Bazin, essas duas técnicas dariam “ao olhar a liberdade de perscrutar o real em sua pulsante e contraditória imanência”. Dessa forma, a montagem não fragmenta o “real” e nem induz o espectador a uma leitura unidirecional do mundo.

Livro do crítico André Bazin que defendia a técnica do plano-sequência como forma de tornar o cinema mais realista.

Contudo, essa visão foi duramente criticada por muitos críticos e diretores que entendiam o plano-sequência apenas como mais uma entre tantas outras técnicas que simulam a passagem de tempo em um filme. Ou seja, ela não é mais ou menos real, e sim algo que se soma ao repertório do cineasta para atingir a sensação pretendida. Além disso, muitos discordam da visão de Bazin sobre o corte, por entenderem que a edição em si é o que faz do cinema algo único quando comparado a outras manifestações artísticas. Tirar isso dela seria como acabar com sua essência, com aquilo que ele possui de tão único e que já faz parte do repertório referencial do público. Afinal de contas, diversos teóricos defendem o contrário: pelo costume, o espectador estranha a falta de cortes em relação a sua ausência.

Para além da teoria, muitas produções se desafiaram nas realizações em plano-sequência. E até mesmo grandes diretores se depararam com uma barreira comum: a tecnologia. No período do cinema analógico o tempo limite de gravação de um plano era o tamanho do rolo de filme. Um negativo de 1000 pés (cerca de 300 metros) registrava apenas 11 minutos. Como seria possível, então, realizar um longa-metragem em plano-sequência com essa limitação? Na década de 40, Alfred Hitchcock tinha a intenção de adaptar para o cinema uma peça de teatro que se passava das 19h30 às 21h15. Segundo o diretor, “a peça durava o mesmo tempo que a ação, era contínua, desde que a cortina subia até que o pano descia, e fiquei pensando: como é que, tecnicamente, posso filmar da mesma maneira?”.

Set de filmagem de “Festim Diabólico”. Tudo era preparado e ensaiado para filmar continuamente.

Rompendo com a tradição e a impossibilidade tecnológica da época, Hitchcock apresentou em 1948 “Festim Diabólico”, um longa-metragem que simula o plano-sequência em toda sua duração. Para driblar a limitação dos 11 minutos do negativo, o cineasta “escondeu” os cortes entre os rolos com uma técnica intitulada blocking. Quando o rolo estava prestes a acabar, o operador de câmera se aproximava de um personagem, dando um close-up em seu casaco e deixando a tela inteiramente preta. Após trocar o rolo do negativo, o próximo plano iniciava da mesma posição, ou seja, na imagem preta do casaco do personagem. Dessa forma, a tela preta criava uma costura entre os planos, disfarçando o corte e dando assim a sensação de fluidez perante o público. Tudo tinha que ser milimetricamente planejado. O chão tinha diversas marcações e o operador de câmera tinha que alinhar sua posição com os diálogos do roteiro. O cenário também era adaptado já que os móveis tinham rodinhas e as paredes eram deslocáveis para a câmera transitar livremente entre os cômodos. Ao todo foram dez dias de ensaios, dezoito dias de gravação e nove dias de refilmagens.

O diretor Alfred Hitchcock coordenando sua equipe para a realização do filme em plano-sequência.

O tempo passou e as dificuldades em realizar os planos-sequências continuam. Mesmo com os avanços tecnológicos, gravar longos takes ainda esbarram no acerto de dezenas (ou até centenas) de profissionais coordenados tal como uma coreografia. Por isso, filmes que abraçam essa técnica geralmente o fazem não somente pelo senso estético, mas pensando no quanto o plano-sequência impacta decisivamente na compreensão da narrativa. É o caso do recente filme “1917” (vencedor de melhor fotografia no Oscar de 2020), em que o diretor Sam Mendes e o diretor de fotografia Roger Deakins construíram os 118 minutos de filme com um corte só. É claro, há alguns outros imperceptíveis, como quando uma porta fecha ou acontece uma explosão e tudo fica escuro, mas a sensação é de que, realmente, acompanhamos os personagens em tempo real durante a Primeira Guerra Mundial. E porque isso é tão importante para a audiência? Segundo seus realizadores, o filme que pretendiam fazer necessitava ser rodado em plano-sequência pois só assim conseguiriam retratar todo o caos, perplexidade e perda da noção espacial que os soldados relataram ao retornar do conflito.

Em “1917”, as longas sequências servem para demonstrar a real dimensão das trincheiras quilométricas em que os soldados viviam.

Exemplificando, logo no começo, dois soldados andam pelas trincheiras sem parar. Quilômetros e mais quilômetros são percorridos sem cortes e o espectador tem a compreensão de forma aproximada sobre como seria estar naquele verdadeiro labirinto claustrofóbico debaixo da terra. Sem a edição, andamos juntos e ficamos abismados frente a dimensão daquele espaço. Em outro momento, os dois personagens se encontram lutando contra um soldado inimigo que os faz uma emboscada. Lá no fundo, concomitante, se observa caças voando e atirando uns nos outros no céu. A ação se desenvolve em duas perspectivas e o público acompanha simultaneamente todo o contexto da guerra em suas várias frentes sem cortes. Tudo está acontecendo sem interrupções. Para chegar neste resultado, o diretor Sam Mendes e sua equipe levaram 65 dias para gravar tudo. Entre as maiores dificuldades estavam imprevistos principalmente relacionados às mudanças climáticas. Por este motivo, as captações sempre aconteciam em dias nublados para evitar alterações na continuidade e luz.

Bastidores de “1917” demonstram as dificuldades de gravar tudo no mesmo plano sem o auxílio de cortes.

Aqui na Fauno Filmes, realizamos diversos planos-sequências ao percebermos que a narrativa audiovisual será beneficiada pela técnica. É o caso do clipe musical “Canto V” em que o trabalho de câmera acompanha o tempo todo a bailarina. Juntos, travam uma coreografia sem cortes igualmente fluida. Assim como o movimento da dança, o conceito estético visou não fragmentar a percepção da audiência sobre os passos e expressões. Mesma técnica, porém com outro objetivo, no vídeo “Political Trends” realizamos um plano-sequência para demonstrar ao espectador que não existe quebra entre o


Link para o clipe “Canto V” do duo Miniconto: https://vimeo.com/141599182

Link para o vídeo “Political Trends”: https://vimeo.com/259669376