Você sabe como funciona o cinema 3D?

Utilizando de uma técnica antiga, os filmes “enganam” nosso cérebro ao forçar a tridimensionalidade.

 

De tempos em tempos, a indústria do cinema precisa criar algo para não perder parte de seu público frente a outras formas de entretenimento. Do advento dos televisores em meados do século XX, surgiu a necessidade de inovar as salas de exibição ao trazer telas maiores que - sem sombra de dúvidas - tornam a experiência audiovisual muito mais imersiva quando comparado ao de nossas salas de estar. Recentemente, a internet trouxe semelhante dilema ao modificar os hábitos de consumo relacionados ao vídeo.

Independente se for no Youtube ou Netflix, a praticidade muitas vezes sobrepõe a tão tradicional ida ao cinema já que nela envolve o deslocamento, trânsito, filas, ingresso e outras demandas. Não é à toa que ao estrear em 2009, o filme “Avatar” de James Cameron se tornou a maior bilheteria da história. Inaugurando a nova leva de filmes 3D, agora o consumidor comum e esporádico (leia-se o não cinéfilo e entusiasta) tinha um motivo para sair de casa: Uma nova experiência.

Pôster do filme “Avatar” (2009) em que já se destacava

a “novidade” referente a exibição. Seu diretor James Cameron

criou novas tecnologias para tornar o 3D como conhecemos possível.


Você pode até estar no grupo de pessoas que não gosta e prefere a projeção habitual em “2D”, mas é inegável o impacto que esta nova tecnologia trouxe para Hollywood. Das dez maiores bilheterias do ano passado, nove fizeram uso dela para lotar as salas ao redor do mundo. Contudo, você sabia que o cinema 3D não é algo tão recente assim? Ou melhor, você sabe como funciona na prática este tipo de exibição? Antes de mais nada é importante destacar que tudo não passa de uma ilusão, algo criado para enganar nosso cérebro ao “forçar” a sensação de profundidade na tela.

Nós seres humanos possuímos uma visão binocular, ou seja, cada olho enxerga uma imagem diferente e nosso sistema nervoso é o responsável por combiná-las em algo único. Com ângulos ligeiramente diferentes e um espaço de aproximadamente 5 cm entre os globos oculares, o cérebro processa as duas perspectivas e cria nossa visão ao calcular por estimativa a distância entre os objetos.

Foi o que o médico Charles Wheatstone demonstrou quando, por volta de 1830, montou o primeiro estereoscópio. Neste aparelho, um jogo de espelhos refletia dois desenhos ligeiramente diferentes para cada um dos olhos e que, ao visualizar de maneira integral, sua soma resultava em uma imagem com grande profundidade e volume. Graças a este experimento, foi possível compreender o motivo pelo qual alguém que perdeu a visão em um dos olhos terá sua noção espacial prejudicada pelo resto da vida.

Projeto de Charles Wheatstone e uma recriação atual do estereoscópio.

Pela diferença na distância e ângulo, a imagem criada contém profundidade.


Certo, agora que já sabemos um pouco mais sobre como as imagens são processadas em nosso corpo, retornemos ao passado para entendermos melhor como se dá o 3D no cinema. Quem não se lembra dos clássicos óculos de celofane em vermelho e azul que usávamos para ver uma projeção ou até mesmo livros que prometiam a sensação de tridimensionalidade?

Ainda no século passado, os primeiros filmes gravados em 3D eram captados por duas câmeras equipadas justamente com lentes destas duas cores. Usadas como filtros, as vermelhas barravam a passagem da cor azul e registravam as imagens com ausência deste tipo de tonalidade, sendo o mesmo feito com a sua contrapartida. A pequena distância existente entre as duas câmeras produzia um efeito similar ao da visão estereoscópica. Na sala de exibição, dois projetores eram usados para sobrepor as imagens.

Simplesmente por usarmos óculos com uma lente azul e outra vermelha, era possível impedir a passagem de uma das gravações em um dos olhos. Como a filmagem era feita em uma perspectiva diferente, surgia o efeito de profundidade entre os planos justamente por “enganarmos” nosso cérebro em sua tentativa de criar uma única imagem. A todo momento enxergamos duas coisas que, pela incapacidade de se sobreporem, geram a sensação de tridimensionalidade.

Óculos de celofane que serviam

para barrar as cores e, assim, criar o efeito 3D.


Os filmes modernos são gravados de forma similar, mas sem o prejuízo causado pela perda de informação das cores que acontecia no cinema 3D antigo. Ainda hoje as cenas necessitam ser filmadas duplamente com uma leve diferença de ângulo. Antes, isso era feito ao acoplar duas câmaras, o que despendia grandes esforços para sincronizá-las, além do alto custo de produção, já que a quantidade de equipamentos e operadores precisava ser o dobro em set.

Atualmente, aparelhos mais modernos são equipados com duas lentes e conseguem capturar as imagens simultaneamente. Essas câmeras gravam as cenas em polarizações diferentes – enquanto uma das lentes apresenta polarização horizontal, a outra é polarizada verticalmente. Em outras palavras, elas filmam as cenas bloqueando a entrada de luz em alguns pontos e permitindo em outros. Tal como acontecia com as cores vermelho e azul, durante a exibição do filme os espectadores utilizam óculos com lentes igualmente polarizadas, fazendo assim com que cada olho enxergue uma imagem diferente da outra.

Câmera utilizada para captações em 3D. Observe

a entrada frontal para duas lentes que gravam simultaneamente.


Neste ponto, outra particularidade técnica envolvendo o cinema entra em ação. Tradicionalmente, os filmes são projetados a 24 quadros. Isto quer dizer que dentro do curto espaço de apenas um segundo, 24 fotografias (os ditos ‘frames’) são colocadas em sucessão para gerar o efeito de movimento que vemos na tela. Por serem utilizadas câmeras que gravam simultaneamente em duas lentes, o filme terá, portanto, 48 quadros por segundo - o dobro quando comparado aos filmes “convencionais”.

Contudo, na sala de cinema, 24 deles serão vistos apenas pelo olho direito e os outros 24 apenas pelo olho esquerdo. Exibido muitas vezes com dois projetores ao mesmo tempo, os óculos 3D com os filtros de polaridade permitem que cada olho receba um quadro, uma projeção em particular para o esquerdo e outra para o direito. A partir dessa duplicidade, pela junção das duas imagens vistas por cada globo ocular, o nosso cérebro forma uma terceira dotada de profundidade.

Flipbooks, aqueles pequenos cadernos que pela

rapidez na sucessão dos desenhos gera a sensação

de movimento seguindo o mesmo princípio dos quadros no cinema.


Agora que você já sabe como o cinema 3D moderno funciona, faça um teste na próxima vez que entrar na sala de exibição. Quando o filme começar, retire os óculos para ver a tela embaçada pela sobreposição das imagens. Depois, usando o apetrecho, tampe um dos olhos com as mãos e, alternando entre os olhos, você conseguirá ver cada uma das projeções de forma individualizada. Graças ao bloqueio na luz das lentes polarizadas, os planos da cena se destacam. Conseguimos assim enxergar no lado esquerdo aquilo que está na “frente” da tela (geralmente os atores e a ação principal) e no direito o restante (cenário, figurantes, etc).

Por vezes, escutamos que tudo em um filme não passa de uma ilusão - artifícios utilizados para criar sensações que nos desligam do mundo real para imergirmos de cabeça na narrativa. O 3D é mais um destes truques utilizados neste show de mágica chamado cinema.