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  • FaunoEditor

Isolamento compartilhado: os encontros à distância


Em tempos de pandemia cada vez mais as pessoas foram obrigadas a permanecer em isolamento social. Tarefa complicada em diversos aspectos, pois afinal, como manter próximo quem precisa permanecer distante?


Entre as adaptações necessárias para tentar se aproximar ao máximo da normalidade pré-pandêmica, a ferramenta mais utilizada foi o audiovisual. As pessoas veem o mundo através de uma tela, o poder da imagem se faz presente nas salas de aula, reuniões de empresas, festas de aniversário, shows e todo o tipo de evento presencial, os quais foram transferidos para o virtual.


As substituições foram graduais, escolas migraram para o modelo EAD com videoaulas online, empresas fazendo home office, comediantes, cantores e pessoas que dependem de eventos presenciais começaram a se adaptar para o modelo online através de transmissões ao vivo via redes sociais. Os exemplos de ressignificações são inúmeros, é preciso se reinventar para não parar.



E foi assim que as pessoas, aos poucos, começaram a pensar no audiovisual com outros olhos. Ninguém quer que o chefe veja aquela toalha molhada em cima da cama ou a bagunça no quarto. Então, muitas vezes sem perceber, as pessoas passaram a refletir sobre formas de melhorar a sua performance nas telinhas. Seja o enquadramento, a iluminação, um cenário bonito para as reuniões importantes… aspectos comumente pensados em sets de filmagem por diretores agora são preocupações do cotidiano da maioria da população que enfrenta o isolamento social. A consequência disso foi a melhora na qualidade dos vídeos desde o início da pandemia para agora, quase um ano depois.


Profissões nasceram nesse meio tempo impactando o mercado de trabalho. As famosas blogueiras de instagram, youtubers e streamers ganharam força, a câmera do celular virou instrumento de trabalho e noções de linguagem cinematográfica e até mesmo edição de vídeo se tornaram comuns para quem quer obter sucesso na área. Cantores passaram a se preocupar em como manter a renda mesmo sem fazer shows, e a saída foram as lives, muitas vezes transmitidas a partir da casa do artista.


Existem vários tipos de live, mas as mais populares são os musicais. Segundo o Youtube, os shows virtuais de Marília Mendonça (3,31 milhões de visualizações, em 8 de abril), Gusttavo Lima (2,77 milhões de visualizações, em 11 de abril) e Jorge e Mateus (3,24 milhões de visualizações, em 4 de abril) estão entre os mais assistidos no mundo. Além de ser uma boa fonte de renda, relatos de cantores, como Gustavo Lima, revelam que a interação com os fãs pela internet é uma motivação para continuar fazendo o seu trabalho. É uma forma do ídolo ficar próximo dos fãs e não ser “esquecido”, mesmo sem os shows presenciais.


Junto com o aumento no número de lives, veio o aumento no uso da internet. De acordo com o Painel TIC COVID-19, desenvolvido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), durante o período de quarentena, ocorreu um aumento expressivo no uso de serviços pela internet, mudando os hábitos dos brasileiros. Isso inclui compras online, (66% dos usuários de internet fizeram compras de produtos ou serviços online), busca por entretenimento como filmes e séries (43% dos brasileiros conectados pagando por serviços de filmes ou séries pela internet) e pesquisas na internet sobre saúde.


Toda essa situação pandêmica antecipou tendências que estavam sendo implantadas gradativamente. Uma delas foi o home office, uma saída que a maior parte das empresas adotou para manter seus funcionários em segurança e ao mesmo tempo não interferir na produtividade da empresa, inclusive, 73,8% das empresas no Brasil pretendem instituir o home-office após a pandemia de acordo com estudo realizado pela consultoria Cushman e Wakefield.


Visto o sucesso do home office e a necessidade de os trabalhadores aprimorarem seu desempenho perante as câmeras, alguns especialistas fornecem dicas, como o uso de equipamentos para otimizar a videoconferência. Ao invés de ter a câmera integrada no computador, utilizar equipamento externo para garantir melhor qualidade na imagem. Além do uso de headset, para diminuir barulhos externos e ruídos indesejáveis. Ou, ainda, adquirir um sistema completo de videoconferência sem precisar do computador, o qual oferece câmera UHD integrada ao microfone e barra de som. Outra dica para melhorar o som do vídeo é amenizar a acústica no espaço de trabalho para evitar ecos, isso pode ser feito incluindo plantas, móveis, cortinas ou outros objetos no ambiente. Além de melhorar a acústica, ajuda a melhorar o cenário das transmissões.


Porém, apesar de facilitar em alguns aspectos, também trouxe pontos negativos, como a dificuldade em separar o tempo de trabalho e o tempo privado. Sem um chefe ao lado ou cobranças, a procrastinação pode tomar conta do ambiente, é fácil perder o controle, ocasionando muitas vezes estresse e exposição à riscos para a saúde mental. Inclusive, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país que apresenta maior prevalência de depressão na América Latina. É também o país mais ansioso do mundo.


Além da instabilidade mental, outro problema enfrentado é a instabilidade política e social. De acordo com Susan Hayter, consultora técnica sênior sobre o futuro do trabalho na Organização Internacional do Trabalho (OIT), historicamente falando, pandemias e choques econômicos causaram grande desigualdade social. Nem todas as pessoas possuem o privilégio de trabalhar remotamente, e quem não possui precisa perder tempo e dinheiro no deslocamento até a empresa, e, em alguns casos, corre o risco de perder o emprego. Segundo o IBGE, o Brasil encerrou o mês de novembro de 2020 com 14 milhões de desempregados, 200 mil a mais que em outubro e quase 4 milhões a mais que em maio.


Apesar do grande número de desempregados, uma variação trabalhista que está ganhando cada vez mais espaço são as habilidades comportamentais e competências subjetivas, chamadas soft skills, segundo especialistas do mercado. O mundo inteiro está passando por um momento delicado, prezar pelo bem estar é essencial, e possuir funcionários que tenham facilidade para lidar com pessoas e mantenham certa estabilidade emocional em conjunto com habilidades sociais, virou um grande diferencial.

É curioso, mas em algumas situações foi o isolamento social que tornou as pessoas mais próximas, íntimas. Não é todo dia que um fã consegue estar “dentro” da sala de estar do seu ídolo. As pessoas foram humanizadas, uma época de fragilidade emocional fez com que o mundo se abrisse para as câmeras e revelasse um pedaço da vida pessoal. As câmeras transformaram o pessoal em público.


Até mesmo programas de televisão e jogos esportivos sofreram alterações, as tradicionais plateias em programas de auditório foram substituídas por telas, onde cada pessoa aparece dentro de sua própria casa, diretamente para as câmeras do programa. São câmeras filmando outras câmeras, a grandiosidade e alcance do vídeo ultrapassou barreiras, não apenas une o que está longe mas dá um novo significado para esses encontros a distância.



O fato é que as relações humanas foram alteradas. Mas o que as torna únicas? A resposta é: o audiovisual. Se não fosse pelo vídeo, a comunicação se daria através de textos corridos, mensagens automáticas ou emails que qualquer um pode mandar ou receber. O vídeo, em conjunto com a tecnologia, tem o poder de acolher, transmitir sentimentos, comemorações, ensinamentos e até mesmo intrigas. Constrói amizades, une familiares e ameniza a saudade. O que antes era uma forma de entretenimento, se aperfeiçoou para um estilo de vida. Vivemos o audiovisual. Seria a vida imitando a arte?


A pandemia está durando mais tempo do que a maioria das pessoas imaginavam. Mas e depois, como será? Essas construções culturais estabelecidas dentro da pandemia a partir do audiovisual irão permanecer? É difícil afirmar, mas certamente o audiovisual foi responsável por mudanças comportamentais que serão sentidas por algum tempo, porém, isso são cenas para os próximos capítulos.

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