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Cinema e videoclipe: O que Franz Ferdinand tem a ver com o Construtivismo Russo?

Todos os seres humanos estão inseridos em uma sociedade e sofrem influências socioeconômicas, culturais e dos meios de comunicação, como por exemplo, a TV, a internet e o cinema. As percepções de cada um são construídas com base nas experiências de vida, por isso, elas são tão diferentes e variadas. Seja o jornal, a série de televisão, as redes sociais, sites de notícia ou vídeos de canais no Youtube, tudo o que é consumido contribui na formação da identidade de uma pessoa e é refletido nos seus gostos, vontades e posicionamentos. Já parou para pensar o motivo da sua banda favorita ser a sua banda favorita? Provavelmente você foi influenciado por algum meio, seja família, internet, livro ou um post no Instagram.


Hoje em dia o mundo está cada vez mais dinâmico, as pessoas possuem uma necessidade de urgência e estão conectadas o tempo todo. Muitas vezes uma mesma mídia pode acarretar em opiniões diferentes e essa pluralidade ajuda a desenvolver uma sociedade cada vez mais diversificada. Inclusive, até mesmo a forma de compartilhamento de informações pode variar e interferir, pois cada indivíduo possui um hábito próprio, e a mesma informação pode ser disseminada de uma maneira em um site de notícias e de outra em uma mensagem no whatsapp. Tudo varia de acordo com a percepção de cada um e quais são as suas influências e repertório pessoal.


E no meio de tantas fontes e modos de ver diversificados, as pessoas constroem relações sociais, mas por terem experiências tão diferentes, acabam estabelecendo um intercâmbio de linguagens que as leva até a pluralidade cultural. Constantemente, conceitos já estabelecidos dentro de uma sociedade são ressignificados e apropriados. Dessa forma, novas linguagens são criadas mesmo que os indivíduos estejam inseridos no mesmo meio. Inclusive, é o que acontece na comunicação através do audiovisual.


Um exemplo dessa comunicação está nos videoclipes. Eles ganharam um novo espaço dentro do audiovisual para explorar novas formas de linguagem derivadas da fotografia, publicidade, cinema, televisão e as artes plásticas. Os artistas transitam entre diferentes tipos de linguagem, o que resulta em construções expressivas e poéticas. Dessa forma, o videoclipe deixou de ser apenas uma sequência de imagens que ilustra a música e passou a ser uma experimentação artística poética dentro de um ambiente audiovisual. A narrativa do vídeo sofreu alterações, sua edição com efeitos especiais e aspectos característicos da linguagem cinematográfica transformaram sua essência.


Pense no seu videoclipe favorito. Certamente existiram algumas preocupações como a fotografia, iluminação, processos na edição para alterações das imagens e tratamento nas cores para criar uma atmosfera e linguagem que a banda almeja para representar não só a música, mas também o seu conceito.


Dessa forma, o videoclipe incorporou características vinculadas ao cinema, à TV e até mesmo à internet. A interrelação desses elementos gera uma linguagem diferenciada, híbrida. É a apropriação de um conteúdo para criar uma nova narrativa. Uma forma de ressignificação de linguagem ocorre no videoclipe da música Take Me Out da banda Franz Ferdinand. O vídeo é de 2004 e é recheado de referências e apropriações de um movimento chamado Construtivismo Russo.


O Construtivismo Russo foi um movimento artístico que defendia uma arte para o povo. O ano era 1917 e poucas pessoas eram alfabetizadas, então, para fácil entendimento de todos e para a arte atingir um número grande de pessoas, e não apenas a classe privilegiada, ele possuía algumas características marcantes. Entre elas estão o uso de formas geométricas, cores primárias, tipografia sem serifa, elementos industriais e a utilização de materiais como madeira, vidro, ferro e aço para a fabricação das peças de arte. As raízes do construtivismo foram se popularizando e gerando ecos ao passar dos anos. Ideias semelhantes com o seu conceito passam por um processo de aperfeiçoamento e, através da linguagem, originam novas representações e perspectivas artísticas diferentes. É o caso do videoclipe em questão.


E como um movimento artístico tão antigo pode estar relacionado com um videoclipe tão atual?


Simples, aspectos do movimento foram adequados à mensagem que a banda gostaria de transmitir. Um exemplo é o lettering com a mesma tipografia utilizada nos cartazes russos, feitos pelos artistas da época. As formas geométricas triangulares e até mesmo as cores são derivações. O vermelho era uma cor característica do movimento e está presente em diversas partes do vídeo, como é possível observar na comparação entre takes e peças de arte abaixo.

Legenda: Imagem vídeo clipe da música Take Me Out (2004).


Legenda: Cartaz “Trade Union is a Defender of Female Labour”, Alexander Rodchenko (1925).


Fragmentos geométricos também são incorporados no videoclipe, trazendo forte influência das obras do artista construtivista El Lissitzky, como pode ser visto nas figuras abaixo. A única diferença é que no clipe os fragmentos estão em movimento, e, no quadro, eles são estáticos. É a apropriação da arte plástica na arte audiovisual.

Legenda: Imagem vídeo clipe da música Take Me Out (2004).


Legenda: “Wendingen”, El Lissitzky


A estética da máquina, vigente na realidade em que o movimento artístico foi criado, também é representada no clipe. Nos takes abaixo é possível conferir isso. Os corpos robotizados e as engrenagens são comparados com as peças plásticas feitas com materiais de ferro e aço. Ou seja, é um rastro da linguagem utilizada em 1917, agora ressignificado para um videoclipe de uma banda de rock alternativo dos anos 2000.

Legenda: Imagem vídeo clipe da música Take Me Out (2004).


Legenda: Vídeo clipe da música Take Me Out (2004).


Mas afinal, depois dessas comparações estabelecidas, será que o público precisa possuir todo esse repertório sobre arte e cinema russo para entender o videoclipe da banda? A resposta é não, e essa é a beleza da ressignificação e apropriação. Não necessariamente você precisa entender e estar a par de toda a construção da linguagem ou representação de algo. Como dito no início desse texto, cada um de nós possui um repertório distinto, e temos modos de ver diferentes, e é aí que mora a beleza do audiovisual. Mesmo com fontes similares, nada nunca será igual. Sendo possível utilizar antigas perspectivas para criar novos aspectos, por exemplo, um videoclipe.


Depois dessa reflexão, você se recorda de algum clipe que te fez lembrar imediatamente de um filme? Por qual motivo? Foram os personagens, a paleta de cor, os enquadramentos, a ambientação? Essas relações são muito mais comuns do que as pessoas imaginam!



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