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Cinema e Semiótica: indo além do que pode ser visto.

Atualizado: 4 de Set de 2019

Ser um bom roteirista ou um bom diretor de produções audiovisuais não envolve apenas possuir habilidades específicas como boa escrita ou capacidade de liderança. Roteirista e diretor precisam estar cientes das técnicas disponíveis para a montagem da obra e, mais do que isso, entender de que forma essas técnicas impactam o espectador.

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Um plano filmado em contra-plongée (de baixo para cima) e com luz dura - no contexto de um filme de terror, por exemplo - geralmente cria em que está vendo uma impressão desconfortável sobre o cenário. Diz-se “geralmente” porque, afinal de contas, cada um tem uma percepção única sobre determinada projeção. Ainda assim, pode-se dizer que existe uma convenção - histórica e culturalmente construída - que orienta a forma do nosso pensar.

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Cenas dos filmes Bastardos Inglórios (2009) e A Marca da Maldade (1958) evidenciam o ângulo contra-plongée.


É com o objetivo de entender melhor quais são e de que forma funcionam essas convenções que a semiótica surge. Apesar de inúmeras vertentes e objetos de estudo diferentes, em sua concepção mais básica, a semiótica se ocupa de compreender a relação entre o significado e seu respectivo significante no processo de construção do signo. Em outras palavras, é a noção de que algo corresponde à outra coisa.

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É o tipo de assunto que parece complicado, mas não é. O significante nada mais é do que a imagem (acústica ou visual) de alguma coisa: a verbalização ou o desenho de uma bola de basquete, por exemplo. Já o significado seria aquilo que nós, individualmente, julgamos sobre determinado significante: é possível que um dos primeiros significados inferidos sobre uma bola de basquete seja referente ao esporte que é praticado com ela ou mesmo o fato dela quicar. A combinação do significante (forma) com o significado (conteúdo) gera o que se chama de signo.

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Significante (ilustração do objeto) e significado (uso atribuído ao objeto).


De maneira ainda mais abstrata, imagine um triângulo (significante). Por si só, esta forma geométrica possui incontáveis interpretações baseadas no referencial de cada pessoa (significado). Para alguns, se relaciona com o estudo matemático em duas dimensões, para outros com construções do Egito Antigo ou então com a santa trindade católica estabelecida entre o “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo”. Agora, volte a imaginar o mesmo triângulo só que “deitado”, com uma de suas pontas virada para a direita. Temos assim um possível significante referente a inicialização, ou como costumeiramente dito, em “dar o play”. E o quanto este signo (junção da forma com o significado) faz parte do seu dia-a-dia? Aposto que, ao seu deparar com um vídeo no Youtube ou Netflix, você sabe exatamente onde clicar para iniciá-lo, não?

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Triângulo (significante) é geralmente considerado como botão de play (significado).


Mas de que forma isso se aplica ao cinema?

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Levando em conta que o frame é a unidade mínima de composição de um filme, os estudos na área são conduzidos principalmente a partir da perspectiva da semiótica visual. Ou seja, a imagem é encarada como signo e o foco é em entender de que maneira determinadas sequências são associadas a certos significados.


É com base nesses fundamentos que se pode afirmar que na maioria das vezes que o herói ou um personagem bem-intencionado é apresentado em um plano, sua trajetória se faz da esquerda para a direita - enquanto o vilão percorre o caminho contrário. Esta convenção da cultura ocidental é explicada pelo nosso padrão de leitura: o movimento ocular que realizamos é da esquerda para a direita, de forma que o mesmo foi naturalizado e privilegiado em detrimento do sentido contrário. É difícil e desconfortável ler da direita para a esquerda. Sendo assim, quando vemos um personagem - mesmo que ainda não saibamos nada sobre sua índole - entrar um plano pela direita, inconscientemente atribuímos significados negativos a ele.

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E veja só, o mesmo acontece com o botão play, aquele mesmo do triângulo deitado. Na esquerda está representando o todo, o início cheio que, conforme caminha linearmente para a direita, se esvai até terminar.

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E esse é apenas um dentre inúmeros preceitos delineados pela semiótica no cinema: a sétima arte, combinação de tantas outras, é capaz de agrupar em um único plano uma quantidade copiosa de signos e, consequentemente, significados.

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Por isso, como dito anteriormente, não basta que diretor e roteirista dominem apenas as ferramentas práticas de produção. É preciso saber enxergar além do que pode ser visto: detalhes que podem parecer pequenos na verdade são cruciais para o desenvolvimento de uma narrativa audiovisual que almeja alcançar excelência em qualidade.



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