Apocalipse para falar sobre nós mesmos

Como o subgênero cinematográfico associado ao fim dos tempos trata, na verdade, do impacto humano no meio ambiente pelo imediatismo do caos.

 

Alguns anos após o “Independence Day” (1996) ter estreado nos cinemas, seu diretor Roland Emmerich enfrentou imensa pressão para produzir uma sequência. O seu filme de ficção científica arrecadou mais de 300 milhões de dólares nas bilheteiras norte-americanas e 800 milhões no restante do mundo – isso sem falar em toda a repercussão e alcance ao pautar desde extensas reportagens na mídia a até espontâneas conversas de bar. Naturalmente, os executivos do estúdio queriam outra invasão alienígena frente ao estrondoso sucesso comercial atingido.

Pôster do grande sucesso comercial “Independence Day”.

Contudo, na virada do século, as preocupações de Emmerich residiam em outra perspectiva igualmente apocalíptica. Impactado pelo livro "The Coming Global Superstorm" (1999) dos autores Art Bell e Whitley Strieber, nele a narrativa explora a possibilidade de uma catástrofe ambiental sem precedentes em um futuro próximo. De igual forma, o diretor surgiu com um roteiro em que a distopia futurista não mais seria causada por agentes externos, mas que a culpa pelo cenário calamitoso seria totalmente vinculada à ação humana.

Em recente entrevista para o site jornalístico Vox, Roland relembra que "meus amigos pensavam que eu era louco. Sempre me perguntavam: 'De que trata este filme?' eu dizia: 'Aquecimento global'. Não se esqueçam que naquela altura, em 1999, esse tema era uma espécie de coisa marginal. As pessoas liam sobre ele, mas ninguém sabia realmente o que se estava a passar". O diretor complementa atentando ao fato de que em “Independence Day”, a salvação vem dos militares que enfrentam uma ameaça interplanetária de maneira idealizada e patriótica. Igualmente, na última década, filmes da Marvel e DC acabam por imputar a responsabilidade da sociedade na figura de um super-herói.

Em "The Day After Tomorrow", ameaça alienígena dá lugar para a humana.

Querendo mudar essa percepção dentro de uma obra apocalíptica, ele acabou por escrever e dirigir em 2004 o filme "The Day After Tomorrow" – que muitos lembram por ter sido comercializado com a icônica imagem da Estátua da Liberdade enterrada sob a neve. A sua exatidão científica foi duramente debatida, a narrativa central ridicularizada como simplória e o desfecho criticado por ser previsível. Porém, seu impacto duradouro nas audiências mundiais é inegável. Mesmo agora, à medida que o aquecimento global vai se tornando cada vez mais presente em toda a indústria do entretenimento, o filme de Emmerich está frequentemente entre os primeiros a ser mencionado.

Este assunto já tinha sido abordado anteriormente em Hollywood. Questões climáticas receberam suas primeiras menções ainda na década de 1970. As obras “Silent Spring” (1962) e “The Limits to Growth” (1970) encontravam no espírito hippie da época o arcabouço narrativo para criticar os avanços do homem frente à natureza. Inclusive, em um dos filmes mais reconhecidos da época, “Soylent Green” (1973), retrata uma Nova Iorque com 40 milhões de habitantes que tem de suportar, ao longo de todo o ano, altas temperaturas devido ao efeito estufa.

Filme de 1973 que apresenta um futuro apocalíptico causado pelo homem para 2022.

Independente da época, filmes sobre distopias climáticas imaginam cenários em que rapidamente as estruturas que regem nossa sociedade são deterioradas frente às mudanças sem precedentes. O planeta Terra em si age como uma força punitiva em relação ao homem que passa a viver sob novas regras. Embora não haja dois apocalipses iguais dentro da cinematografia hollywoodiana, muitos acabam contendo os mesmos ingredientes: Agitação civil, moralidade decadente, atenuação das injustiças sociais, colapso das estruturas governamentais, surgimento de poderes e milícias locais, enfim, as mudanças no planeta servem como pano de fundo para falar sobre nós, humanos.

O futuro apocalíptico causado pelo homem como pano de fundo para a ação de “Mad Max: Fury Road”

Filmes como “Mad Max: Fury Road” (2015) partem justamente para a pós catástrofe em um mundo já arrasado. Não se preocupando em determinar o como, mas principalmente demonstrando o que aconteceria depois, o diretor George Miller eleva o tom ao retratar um cenário caótico calcado na violência como forma de lidar com a escassez de água e comida. Em suas próprias palavras, “quem matou o mundo faz parte de uma alegoria. O que o filme transmite é um cenário mais elementar do que o complexo momento moderno que estamos lidando. É uma regressão a um tempo medieval, porém possível”. Concluindo, Miller destaca que “secas, queimadas e inundações são temas intrínsecos à narrativa humana. O que acontece é que agora eles estão amplificados pelas mudanças climáticas de forma irresistível”.

O que "The Day After Tomorrow" e “Mad Max: Fury Road”, no final das contas, têm em comum? Independente da estética e narrativa escolhida por seus realizadores, ambos filmes retratam um mundo sem volta através do extremo. Em pouco mais de duas horas, trazem para o espectador o imediatismo das mudanças climáticas aos quais nós, pelo suceder do cotidiano, muitas vezes não percebemos ou até mesmo negamos. Esse poder de síntese do audiovisual, em rapidamente mostrar um propósito maior em sua história, funciona para que possamos parar e refletir sobre nossas ações, dizeres e escolhas sem as distrações do dia a dia. O tempo do cinema é diferente do nosso, em que cada segundo é pensado para atingir um objetivo coeso que perpassa toda a estrutura do filme.

Vídeo produzido pela Fauno Filmes em que todo o entorno é alterado para evidenciar os impactos do homem no planeta. Na foto, o cenário se transforma em deserto.

De igual forma, um dos últimos trabalhos da Fauno Filmes seguiu semelhante diretriz em sua feitura. No vídeo em questão, apresentamos de forma metafórica uma esteira de separação de lixo enquanto o planeta Terra. Nas idas e vindas dos itens, todo o entorno é modificado em efeitos de computação. Desta maneira, o espectador vê de maneira direta o cenário se materializando em sua frente junto a mensagem que envolve sustentabilidade e respeito com o planeta. Exemplificando, ao tratar sobre o acúmulo de plástico provocado pelo homem, o entorno se transforma em um grande lixão contendo do material; de igual forma, ao falar do desperdício de água, tudo ao redor da esteira vira uma poça suja e contaminada. Assim, como feito nos filmes anteriormente tratados neste texto, fazemos do imediatismo uma forte ferramenta para sensibilizar o espectador quanto ao meio-ambiente.

Confira o vídeo no link a seguir: https://vimeo.com/697514183