A Evolução das salas de cinema ao longo dos anos

Buscando sempre atrelar novas tecnologias com as demandas do mercado, a indústria cinematográfica inova visando expandir a experiência de seus filmes.

 

Nesta publicação vamos viajar por décadas relacionadas ao cinema, especificamente sobre a evolução das suas salas de exibição, indo desde o final do século XIX até nosso presente tempo. Se adaptando aos cenários econômicos e sociais ao longo dos anos – igualmente na transformação dos hábitos de consumo do seu público - resgatar a história dos cinemas é também entender como essa indústria está vinculada às inovações tecnológicas do último século.


Lanternas mágicas

O praxinoscópio, uma das primeiras formas comerciais de visualizar conteúdos audiovisuais da história.


Os primeiros filmes eram, na verdade, experiências individuais. De fato, foram inicialmente chamados de espetáculos em lanternas mágicas. Em 1890, as pessoas aglomeravam-se em pequenas salas, pagavam alguns centavos e viam imagens em movimento através de slides utilizando máquinas como o praxinoscópio. O aparelho inventado por Émile Reynaud projeta em uma tela imagens desenhadas sobre fitas transparentes.

Por conta de um complexo jogo de espelho, surge para o espectador efeitos de sombra e relevo. Pela multiplicação das figuras desenhadas e a adaptação de uma lanterna de projeção, a invenção possibilita a ilusão do movimento. Centenas de desenhos eram feitos para gerar 15 minutos, sendo que muitas das salas onde se encontravam os praxinoscópios eram adaptadas para melhorar a experiência ao pintar as paredes de preto, além de bloquear as janelas para que a luz de fora não atrapalhasse o público.


Os primeiros cinemas

Cartaz publicitário do cinema que utilizava um dos primeiros projetores criados por Thomas Edison.


Na França, em 1884, Louis e Auguste Lumière rodaram seu primeiro filme intitulado “Workers Leaving The Lumière Factory” em Lyon. Este foi considerado o primeiro registro audiovisual e rapidamente provocou um frenesi em todo o mundo, ocasionando a criação de salas de cinema a serem exibidos em massa. Foi o caso do teatro Vitascope de Thomas Edison, inaugurado em 1896, que continha 72 lugares e contava com o projetor criado e patenteado pelo próprio inventor.

Pela rápida adesão do público e a facilidade em reproduzir as obras simultaneamente em diversos lugares, em 1905 – na cidade de Pittsburgh – os donos de teatros Harry Davis e John Harris criaram o conceito por detrás dos cinemas chamados nickelodeons. Neles, o espectador pagava apenas um níquel (por isso o nome) para ver o último filme em exibição. Em 1907, cerca de 3 mil teatros deste modelo tinham sido abertos e, em 1914, estimava-se que 27% dos americanos iam ao cinema todas as semanas. Diferente do teatro criado por Edison, os nickelodeons contavam com pouco luxo e eram construídos em espaços menores, dinamizando assim as exibições visando lucrar pela quantidade.


Advento do som

Cinema de Edimburgo em 1920 que utilizava uma orquestra durante a exibição.


O cinema mudo perdurou até a década de 30. Contudo, em 1920, era comum que as salas de cinema contavam com apresentações musicais concomitantes à projeção, transformando assim a antiga experiência do absoluto silêncio em algo dinâmico e empolgante. Enquanto assistiam às imagens na tela, o público do cinema era embalado por pianistas e organistas que procuravam retratar as sensações passadas momento a momento do filme em trilhas sonoras. Por vezes, em salas mais luxuosas, até pequenas orquestras acompanhavam a narrativa. Era comum que os próprios estúdios cedessem as partituras para os músicos, mas em alguns casos os artistas tinham de improvisar.

Em 1927, o filme “The Jazz Singer” deu início a uma era inteiramente nova para o cinema. Foi a primeira longa-metragem a ter uma partitura musical gravada e sincronizada, além de falas sobrepostas em várias seções do audiovisual. O filme mudou tudo, tornando obsoletas algumas estrelas do cinema mudo e dando a Hollywood um novo caminho para o que poderiam fazer quanto a efeitos sonoros, trilhas e atuação. Em 1930, os filmes mudos já eram referidos como "o velho modo", ficando restritos às suas exibições apenas em pequenas salas por preços muito inferiores.


Que se faça a cor

Imagem retirada do trailer de “A Branca de Neve” em que o grande chamariz era a presença de cor no filme.


Conseguir diferentes tonalidades nos filmes foi algo difícil de se atingir, sendo que as primeiras tentativas datam o início do cinema. Por muito tempo, os experimentos consistiam em pintar à mão os negativos para emular as cores nas pessoas, objetos e cenários. Somente com a criação do processo Technicolor, em 1932, que esta prática começou a ser vista como escalável dentro da indústria. A técnica consistia em fazer as gravações com três câmeras analógicas extremamente próximas, cada uma com um filtro de cor primária (vermelho, azul e verde). Ao projetar as três gravações em preto e branco - uma em cima da outra - com seus respectivos filtros, era possível exibir filmes partindo destas tonalidades.

No começo foi utilizado de forma pioneira em pequenos desenhos animados e obras experimentais, sendo que, somente em 1937, Walt Disney entregou ao público o primeiro longa-metragem em cores da história - sua famosa adaptação de “A Branca de Neve”. Dois anos depois, seria acompanhado pelo "Mágico de Oz” e “E o Vento Levou", clássicos do cinema que, proporcionalmente, figuram como uma das obras mais assistidas da história. Quando Hollywood observou que a bilheteira destes filmes podia justificar seu alto custo, foram feitos cada vez mais audiovisuais em cores.


Drive-ins

Mais de 200 carros no drive-in em 1961 nos EUA.


Os drive-ins apareceram nos Estados Unidos já na década de 30, mas ganharam vida nos anos 50 e 60 como forma da indústria cinematográfica de tirar o público da frente dos seus televisores. Essencialmente, este tipo de exibição acontece em uma área de estacionamento exterior com um enorme ecrã montado numa extremidade que projeta a imagem para pessoas em seus próprios veículos. O áudio é transmitido através de rádios acoplados na janela/painel ou em alto-falantes laterais a tela.

Seu sucesso também se deu pelo momento econômico favorável que o EUA se encontrava (ápice do ‘estado de bem-estar social’), favorecendo assim o acesso da população na compra e customização de carros. Os veículos deixaram de ser utilitários e se tornaram símbolos que representavam a identidade do seu dono. Não é à toa que na mesma época outros tipos de comércio também se adaptaram ao “boom” dos motores, como é o caso das lanchonetes que adotaram o mesmo esquema drive-in. Embora houvesse muitos cinemas ao ar livre no país – mais de 5 mil - apenas 400 permanecem até hoje. Muitos multiplexes foram construídos em cima dos antigos estacionamentos quando sua popularidade começou a cair na década de 80.


Multiplex

Estreia do filme “Cleópatra” em 1963 no multiplex londrino Dominion Cinema theatre.


Os EUA são conhecidos por Hollywood e suas produções que modificaram o entendimento mundial sobre cinema e entretenimento. Contudo, foi no Canadá que surgiu o primeiro estabelecimento com duas telas. Em 1957, o teatro Elgin, em Ottawa, inaugurou aquilo que futuramente seria chamado de multiplex ao oferecer dois filmes exibidos simultaneamente em diferentes sessões, dando assim maior liberdade para o público escolher entre diferentes narrativas e horários.

Em 1963, Stanley Durwood criou o American Multi-Cinema (hoje chamado de AMC Theatres) que foi o primeiro do seu tipo nos EUA. Vendo como os multiplexes eram rentáveis, muitas das antigas salas de cinema foram adaptadas para acomodar mais do que um filme de cada vez. Velhos palácios foram convertidos em longos corredores que continham dezenas de espaços menores com projetores. Neste período, também se tornou popular a venda de alimentos e bebidas em que os multiplexes contavam com parcerias quanto a refrigerantes e doces. A pipoca, que desde a década de 20 era vendida por ambulantes na porta do cinema, também integrou aquilo oferecido por estas novas redes.


Widescreen e som surround

Funcionários de mãos dadas em frente a tela do cinema Odeon, Londres, em 1967.


As telas panorâmicas (widescreen) nos cinemas até podem parecer algo recente, mas na realidade seu surgimento se dá ainda na década de 1920. Contudo, pelo fato da depressão econômica pós primeira Guerra Mundial e da quebra das bolsas em 29, os cinemas e estúdios optaram por não arcar com os custos dessa adaptação. Essencialmente, qualquer imagem de filme que tenha a relação entre sua largura e altura superior ao padrão de 1,37:1 é considerado uma tela panorâmica.

Em outras palavras, este ecrã dá maior lateralidade e, assim, se propõe uma maior imersão por parte do espectador. A partir dos anos 50, o interesse da indústria cinematográfica nesta forma de exibição retorna graças ao “boom” econômico que reflete no poder aquisitivo do público em geral. Acompanhando grandes produções, a tela panorâmica servia como chamariz para tirar as pessoas de casa, da frente de seus televisores, pois muitas cenas só atingiam sua plenitude em uma widescreen. Praticamente, nesta época, todo filme western iniciava com uma tomada geral da paisagem pois, agora, no mesmo take era possível visualizar estradas, montanhas, vegetação, construções, enfim, tudo graças à lateralidade da tela.

De forma semelhante - tendo surgido em 1940 no filme “Fantasia” da Disney, mas somente se popularizando na década seguinte - o som surround contava com a adição de vários canais de áudio nos alto-falantes que rodeiam os espectadores. Antes, as salas de cinema contavam com apenas saídas mono, ou seja, o mesmo som era projetado sem diferenciação entre as caixas. Pela implementação do surround, rapidamente os estúdios começaram a pensar o áudio pelo padrão estéreo, que foi utilizado pela primeira vez na obra “Super-Homem” de 1979 e depois no clássico “Apocalypse Now” e no mesmo ano.

Graças a esta novidade, hoje os cinemas contam com tecnologias que individualizam aquilo a ser escutado pensando na imersão e qualidade do áudio. Por exemplo, seguindo o padrão Dolby 5.1, temos as falas dos personagens saindo pela frente junto a tela e, lateralmente, efeitos são adicionados de acordo com a ação. Por exemplo, um helicóptero sobrevoando da direita para a esquerda no ecrã segue o mesmo design de som, indo assim o barulho de suas hélices igualmente da direita para a esquerda.


3D e 4D

Público usando óculos especiais em 1950 durante festival em Londres específico para o 3D.


Embora tenha surgido inicialmente nos anos 20, tendo uma fase de ouro na década de 1950, os filmes 3D recentemente regressaram como mais uma opção para a indústria. Basicamente, nestas salas a tridimensionalidade se dá através de um projetor digital que alterna entre imagens que são enviadas para cada um de nossos olhos. Usando óculos específicos, a polarização de cada lente “barra” a entrada de luz, fazendo assim com que a duplicidade do que assistimos gere a ilusão de profundidade e volume. Resumindo, é como se duas projeções acontecessem simultaneamente, uma para o globo ocular direito e outra para o esquerdo e desta diferença na perspectiva resultasse o 3D. Para saber mais sobre esta tecnologia, sua história, aplicações e como funciona em mais detalhes, confira no link a publicação sobre o tema em nosso blog.

Em meio a tantas opções de entretenimento e formas de consumir conteúdos audiovisuais nos dias atuais – TV aberta, a cabo, streaming, etc – os cinemas buscam inovar para continuar atraindo público. Depois do 3D, muitos multiplex investem em um passo além. Em filmes 4D acontece a pulverização de água, as cadeiras se movimentam, cheiros são introduzidos na sala e outras dezenas de efeitos são utilizados para simular o que é visto em cena. Este conceito é antigo, tendo sua origem na década de 40 costumeiramente em parques de diversão, mas com a ascensão recente de mega produções do gênero aventura/ação, diversas empresas investiram em salas que prometem a maior imersão possível como forma de chamar atenção.


IMAX

Tela de uma sala IMAX dez vezes maior do que as “comuns”.


Como já visto com as telas widescreen anteriormente, a indústria do cinema sempre buscou modificar seus modos de exibição no intuito de angariar público principalmente em momentos de concorrência com outras formas de entretenimento. Pensando nisso, hoje em dia, o espectador pode ver filmes em telas até dez vezes maior do que em um ecrã padrão. No IMAX, todas as filas estão posicionadas para que o campo de visão não veja as bordas, ou seja, quando visualizando a ação no centro da projeção, o espectador não se distrai com nada ao seu redor.

Contudo, para atender ao novo tamanho de exibição, a forma como os filmes são feitos precisou sofrer ajustes. No formato IMAX, as produção são realizadas com câmeras diferenciadas. Os longas desse tipo são captados em 70mm ao invés dos clássicos 35mm utilizados nos filmes “comuns”. Por estar entre as mais caras do mercado, o uso deste equipamento fica restrito somente para mega produções, mas nada impede que adaptações sejam feitas em detrimento a qualidade da imagem para que filmes rodados com câmeras “normais” possam ser exibidos em sua tela.